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Um papo com Luiza Lian: “A natureza e a cidade me refletem bastante”

Foto de Filipa Aurelio

No projeto artístico de Luiza Lian, aparentes opostos estão integrados de uma maneira muito fluida, aberta, como uma eterna construção de sentido. A espiritualidade vem com um sincretismo com a intensa realidade urbana de São Paulo. Já a natureza e a cidade aparecem refletidas, em um jogo de espelhos que nos leva a imaginar possibilidades de futuro mais sustentáveis.

Luiza Lian é uma das atrações de nossa edição digital do Rec-Beat SP, que acontece através do YouTube, às 14h no dia 14 de fevereiro. Ela gravou sua participação na escadaria do Theatro Municipal, um dos espaços mais tradicionais de circulação da arte na capital paulista. A artista ainda ministra uma oficina sobre produção artística e visualidades no Conexões Rec-Beat SP, evento voltado para formação profissional e que acontece gratuitamente como parte das atividades prévias do festival.

“A natureza e a cidade me refletem bastante”, diz Lian, em entrevista ao Rec-Beat. “Eu sonho com um momento em que as cidades do Brasil sejam capazes de integrar a natureza em seus projetos de progresso e que o País deixe as suas reservas naturais preservadas”.

Com o seu mais recente disco Azul Moderno, Luiza Lian adicionou ainda às suas inquietações artísticas temas como ancestralidade, espiritualidade e o modo como a passagem do tempo afeta a nossa existência.

“A ideia de que deixamos rastros, fundações, e as coisas acontecem sobre coisas que aconteceram é algo que está muito presente no meu entendimento de arte, de espiritualidade, de cidade, de tudo”, diz. “Acho interessante investigar os rastros, falar sobre os resíduos, investigar de onde vieram nossas ideias, nossas falas.”

No nosso papo, Luiza ainda falou sobre o novo disco que deve sair em breve, o show no Rec-Beat, que foi gravado no Theatro Municipal e como está lidando com a pandemia.

Os shows da sua turnê de Azul Moderno chamam atenção pela expressividade, o conjunto de iluminação, direção de arte e interpretação. Você inclusive vai ministrar uma oficina sobre produção artística nesta edição do Rec-Beat SP. Como é o seu processo de criação para os espetáculos?

O processo de Criação pra cada espetáculo passa por muitas etapas, mas começa no momento em que eu estou fazendo o disco. Minha linguagem de maneira geral é bem imagética, a minha poesia é feita principalmente com imagens. Conforme as músicas vão tomando forma essas imagens também vão tomando forma dentro de mim e eu tento registrar tudo; Escrevo, desenho, faço pastas e pastas de referência. 

A maioria das pessoas com quem eu trabalho tem acesso às músicas um tanto de tempo antes do disco estar pronto. E nós vamos trocando essas imagens até chegar na concepção da identidade visual e do show. Como é difícil ter a oportunidade e recursos para ensaiar um show (as luzes, os movimentos) antes de ir pro palco, ele vai se afinando ao longo da turnê. Nós filmamos e vemos os shows e de tempos em tempos nos reunimos para afinar as suas imagens. 

Sua apresentação no Rec-Beat SP foi feita especialmente para o festival. Pode nos adiantar um pouco sobre o show, como foi se apresentar no Theatro Municipal e como ele dialoga com a sua proposta visual/musical?

Sempre foi uma vontade nossa fazer essa apresentação no Municipal, dentro e fora dele. É simbólico isso ter acontecido em um dos shows de encerramento desse ciclo. Por ser um símbolo histórico de São Paulo, na sua idade, na sua grandeza. O show foi pensado para aquela encruzilhada, quisemos pintar o Municipal, mergulhar ele nas nossas águas e galáxias. 

“Azul Moderno” fala muito sobre a ancestralidade, modernidade, espiritualidade e a relações que se estabelecem com a experiência de estar no mundo. Acho isso muito interessante no seu trabalho, que é refletir sobre nossa relação com o tempo, com a ideia de modernidade. Pode nos contar um pouco como foi esse processo de composição, suas inspirações?

Tudo que é feito agora é parte do processo de ressignificação de algo que já existiu, sei que isso é óbvio, mas é onde está a minha pesquisa num sentido profundo. A ideia de que deixamos rastros, fundações, e as coisas acontecem sobre coisas que aconteceram é algo que está muito presente no meu entendimento de arte, de espiritualidade, de cidade, de tudo. Acho interessante investigar os rastros, falar sobre os resíduos, investigar de onde vieram nossas ideias, nossas falas. 

Azul Moderno de alguma forma é uma ficção sobre isso. Em uma parte das composições eu e a Leda pensamos sobre ideais de amor de um outro tempo, das bisavós, das ancestrais. No resíduo disso em diferentes lugares indiretos das nossas criações que acabavam refletindo nas nossas expectativas e “desejos”, no nosso jeito de nos relacionar mesmo sendo contraditório com os nossos discursos e utopias.

A musicalidade (arranjos e produção) reverenciava essa “ancestralidade” (recente) inventando um disco dos anos 70 para ser desconstruído com elementos mais contemporâneos. De forma que as inspirações dele, para além das minhas vivências íntimas, também acontecem nesses dois tempos; é um tanto de Gal Costa e Jorge Ben, um tanto de Kendrick Lamar e Dirty Projectors.  

A relação com a natureza, a cidade, a vida cotidiana é outro tema que percebemos muito em suas músicas. Lembro o seu show no Rec-Beat 2019 em que você trocou “alô Tietê” por “alô Capibaribe”, enquanto cantava “Iarinhas” bem ali às margens do rio. Qual a importância desses temas pra você?

A natureza e a cidade me refletem bastante. Por um lado, sou paulistana nascida e criada (em parte) em São Paulo, sou uma pessoa bem urbana, viciada nesse caos de São Paulo e todas as possibilidades que ele traz. Por outro, minha conexão com a natureza é de onde vem toda minha vitalidade, criatividade. Também, enquanto umbandista e ayahuasqueira, a natureza está no centro da minha espiritualidade, assim como de inúmeras religiões brasileiras, sincréticas, afro-descendentes e ameríndias.

Eu sonho com um momento em que as cidades do Brasil sejam capazes de integrar a natureza em seus projetos de progresso e que o País deixe as suas reservas naturais preservadas. Quero acreditar que essas duas coisas podem caminhar juntas, isso é bem importante. A maneira como as nossas cidades foram construídas ignorando e atropelando todos os fluxos naturais diz muito sobre a violência sob a qual o país se constituiu. O desmatamento também é uma forma de apagamento das histórias do nosso povo.

Depois do “Azul” você já tem algo que pode nos adiantar sobre seus próximos trabalhos, mesmo que ainda no campo das ideias?

Tem um disco vindo aí, está em processo de gravação agora. Estou bem feliz com as músicas e sei que de um jeito ou de outro ele reflete bastante o que estamos vivendo agora.

Esses últimos meses têm sido bem difíceis por conta da pandemia e do negacionismo. Sabemos que a classe artística (e toda a cadeia produtiva envolvida) foi bastante afetada. Como você tem lidado com toda essa situação?

Com bastante perplexidade para falar a verdade. É muito difícil mirar em qualquer coisa no futuro, tudo foi colocado em cheque, um monte de polo de cultura sendo fechado. Acho que tudo vai se reconfigurar muito. Da minha parte estou mais focada no meu disco, destrinchando a história que eu quero contar nele, nessas imagens, sem muitas expectativas sobre o futuro por que isso só gera sofrimento. Estou tentando viver um dia de cada vez, no presente, deixando as coisas crescerem como podem.